Curadoria Inteligente
08/08/2026 | 5 min leitura

A leitura qualificada aprimora o pensamento crítico, a qualidade de vida e a fluência verbal e escrita

A leitura aprimora o pensamento crítico e a fluência, impactando a qualidade de vida. O Brasil enfrenta desafios com o baixo índice de leitores, ressaltando a importância do hábito.

A leitura qualificada aprimora o pensamento crítico, a qualidade de vida e a fluência verbal e escrita

Diversas pesquisas indicam que a leitura é vista pela maioria das pessoas como um meio para melhorar a qualidade de vida. Ela aprimora o raciocínio crítico, fortalece a comunicação verbal e escrita na língua padrão e se estabelece como um hábito benéfico. Essa perspectiva é corroborada por um estudo da Universidade de Roma, que sugere que indivíduos que leem tendem a ser mais contentes do que aqueles que não leem.

Adicionalmente, experimentamos uma sensação única de prazer e satisfação ao nos aprofundarmos em uma leitura de qualidade, seja através do conforto de um livro físico, seja pela conveniência de um tablet ou outro aparelho eletrônico. Diferente de antigas previsões de conflito, não há uma rivalidade, mas sim uma convivência pacífica entre diferentes formatos, utilizados por gerações analógicas, migrantes digitais e nativos digitais.

Os dispositivos digitais para leitura possuem benefícios claros neste cenário: são convenientes, possibilitam o armazenamento de vasta quantidade de obras (vantagem para viajantes) e, frequentemente, oferecem downloads a custos mais acessíveis. No entanto, algumas pesquisas sugerem que a leitura em telas pode ser menos eficaz para a compreensão e memorização de informações, especialmente em textos complexos e para indivíduos que não cresceram na era digital.

Desse modo, estamos vivendo um período histórico distinto, caracterizado por uma vasta oferta de livros, periódicos e jornais a preços razoáveis, e pela disponibilidade gratuita de quase todos os grandes clássicos da literatura mundial via downloads – um feito que nem a invenção da prensa por Gutenberg conseguiu atingir em tal escala.

Há 37 anos, o físico britânico Tim Berners-Lee concebeu a notável World Wide Web (www), motivado pelo desejo de que ela "abraçasse toda a Terra", conforme suas próprias declarações, optando por não patenteá-la para que permanecesse "livre e igualitária". Atualmente, mais de 1,1 bilhão de sites foram registrados, embora uma porção considerável do conteúdo da internet seja trivial ou mesmo prejudicial. Projeções indicam que mais de metade dos novos conteúdos são agora gerados por robôs e Inteligência Artificial.

Desse modo, a internet, em certa perspectiva, concretiza o grande anseio dos gestores da antiga Biblioteca de Alexandria, que, entre o século III a.C. e o século IV d.C., reuniu aproximadamente 500 mil rolos de papiro. O lema da biblioteca era ambicioso: "adquirir uma cópia de cada manuscrito existente no mundo". Essa foi uma verdadeira jornada, visto que cada papiro ou pergaminho era obtido por diversos métodos, principalmente troca ou saque, tirando proveito da localização estratégica de Alexandria como polo comercial e de navegação. Devido à escassez desses documentos, seu manuseio era restrito aos mais renomados estudiosos da época.

Mesmo na Era da Informação atual, essa limitação ainda existe em certa medida, pois uma parte das informações cruciais, científicas e tecnológicas só pode ser acessada com permissão ou pagamento, apesar da abundância e da natureza democrática sem precedentes dos conteúdos acessíveis na web.

Apesar das ironias e contradições, o Brasil, em comparação, possui um baixo número de leitores, especialmente em relação a materiais educativos e de maior complexidade intelectual. Informações recentes da GWI indicam que os brasileiros permanecem entre os líderes mundiais em tempo gasto nas redes sociais, com uma média de 3 horas e 46 minutos diários, o que nos coloca no topo do ranking global. Esse tempo frequentemente substitui a dedicação à leitura, aos estudos e à interação pessoal com a família e amigos, representando um impacto discreto, mas significativo, dessa hiperconectividade no dia a dia, afetando o presente e o futuro de indivíduos de todas as idades.

Um levantamento mais detalhado, publicado em novembro de 2024 na 6ª edição do "Retratos da Leitura no Brasil" do Instituto Pró-Livro, expõe uma realidade preocupante: pela primeira vez na história da pesquisa, 53% (a maioria) dos brasileiros e brasileiras não leram nem mesmo parte de um livro nos três meses que precederam o estudo. O Brasil registrou uma perda de 6,7 milhões de leitores e leitoras nos quatro anos anteriores à divulgação desse relatório.

Charlie Munger, parceiro e grande amigo de Warren Buffett, foi um dos investidores mais importantes do século XX. Ele faleceu em 2023, aos 99 anos, deixando um legado de clareza, vasto conhecimento e uma fortuna considerável. Em um de seus documentos, ele deixou uma de suas citações mais famosas: “Nunca, em minha vida, encontrei pessoas sábias, em qualquer campo, que não fossem leitores assíduos; nenhuma, zero.”

Essa percepção (e o efeito que teve em Munger) reflete um ensinamento da vivência diária: a criação de novos leitores e leitoras é mais influenciada por exemplos do que por palavras. Crianças frequentemente observam e reproduzem comportamentos, em vez de apenas ouvir. Assim, pais, mães, responsáveis e educadores que têm o hábito da leitura geralmente formam crianças leitoras.

Os benefícios são extensos: indivíduos que leem com frequência desenvolvem uma melhor compreensão textual, maior capacidade de expressão, raciocínio crítico e escrita fluente dentro das normas cultas, características que são crescentemente valorizadas em seleções e no ambiente de trabalho. Quem lê bem, escreve bem. E sobre a relevância da boa escrita, os antigos já alertavam, na sucinta sabedoria do latim: verba volant, scripta manent (as palavras voam, os escritos permanecem).

*Jacir J. Venturi é autor de diversas obras, membro do Conselho Estadual de Educação e do Centro de Letras do Paraná, e atuou como professor na UFPR, PUCPR e como Coordenador na Universidade Positivo.

Original em RCN 67

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