Curadoria Inteligente
09/09/2026 | 10 min leitura

Cuidar dos animais também representa proteger a saúde humana e o meio ambiente

Medicina veterinária vai além da clínica, atuando na prevenção de enfermidades, segurança alimentar e sustentabilidade.

Cuidar dos animais também representa proteger a saúde humana e o meio ambiente

Além do atendimento clínico, a medicina veterinária atua na prevenção de doenças e na segurança dos alimentos

Quando se fala em médico veterinário, a associação mais comum é com o cuidado de cães, gatos e outros animais de estimação. No entanto, a atuação da profissão é bem mais ampla e exerce impacto direto no cotidiano de toda a sociedade, abrangendo a saúde pública, a produção de alimentos, o meio ambiente e a prevenção de enfermidades.

Durante o Dia do Médico Veterinário, comemorado nesta quarta-feira (9), analisar a carreira sob essa ótica auxilia a entender por que zelar pela saúde animal equivale a proteger a saúde humana.

A correlação entre as pessoas, a fauna e os ecossistemas fundamenta o conceito de Saúde Única, premissa que enxerga esses três pilares como diretamente interligados. Na prática, o profissional da veterinária engaja-se em iniciativas que abrangem desde o controle de patologias até a garantia de padrões de qualidade nos produtos de origem animal, o bem-estar dos rebanhos e a busca por métodos produtivos mais sustentáveis e eficientes.

É justamente nessa interseção entre saúde animal, produção e ecologia que se concentra parte da investigação científica da médica veterinária Clara de Araujo Sanchez, mestra em Ciência e Tecnologia Animal e doutoranda em Fisiopatologia e Saúde Animal.

Entre os tópicos pesquisados encontra-se a correlação entre a produção de carne, o ciclo do carbono e a sustentabilidade pecuária. Essa discussão também se conecta com a obra A Carne Nossa de Cada Dia, de autoria de Diana Rodgers e Robb Wolf, que examina as repercussões ambientais, sociais e nutricionais ligadas à fabricação e ao consumo de carne.

Para Clara, o tema demanda ser tratado com embasamento informativo e ausência de generalizações.

“Como profissional da área veterinária, acredito que esse debate precisa ser feito com informação e sem generalizações. A pecuária tem impactos ambientais, mas também possui uma enorme diversidade de sistemas de produção e realidades.”

SAÚDE ÚNICA

As condições sanitárias de um rebanho geram reflexos que extrapolam as cercas da propriedade rural. Espécimes saudáveis demonstram melhores índices de desenvolvimento e produtividade, enquanto a profilaxia e o combate a enfermidades revelam-se essenciais para mitigar riscos sanitários e salvaguardar a população.

O médico veterinário desempenha seu papel nessa dinâmica através do monitoramento dos animais, da prevenção de patologias, da orientação sanitária, do emprego consciente de fármacos veterinários e de rotinas associadas à inspeção e segurança de mercadorias de origem animal.

Essa responsabilidade ganha ainda mais evidência frente às chamadas zoonoses, que consistem em doenças transmissíveis entre bichos e seres humanos. Desse modo, a Medicina Veterinária assume um papel estratégico na salvaguarda da saúde coletiva.

Na perspectiva de Clara, tal vinculação justifica por que a ocupação precisa ser compreendida para além do suporte clínico nos consultórios.

“Cuidar da saúde animal também é cuidar da saúde humana. Quando trabalhamos com prevenção de doenças, bem-estar animal, segurança dos alimentos e qualidade da produção, estamos atuando diretamente em questões que chegam à sociedade.”

PECUÁRIA SUSTENTÁVEL

Outro assunto intrinsecamente ligado ao trabalho veterinário diz respeito à sustentabilidade na cadeia produtiva de alimentos.

A atividade pecuária gera marcas ecológicas, sobretudo no que se refere à liberação de gases estufa, ao aproveitamento do solo e à exploração dos recursos naturais. Apesar disso, existem múltiplos modelos produtivos, contextos climáticos e graus de eficiência.

Consequentemente, conforme aponta Clara, a discussão exige ponderar as particularidades de cada método em busca de aprimoramentos. “É fundamental discutir como produzir melhor, utilizando tecnologias, manejo adequado, recuperação de pastagens, eficiência produtiva e práticas que permitam produzir mais com menor impacto ambiental.”

A pesquisadora enfatiza que o conceito de sustentabilidade jamais deve ser encarado como um antagonismo à produção cárnea.

“Sustentabilidade não deve ser vista como uma oposição à produção de carne, mas como um desafio para que a produção seja cada vez mais eficiente, responsável e ambientalmente adequada.”

Tal ponto de vista altera a percepção do consumidor diante do tema. Em vez de restringir o debate ao dilema entre ingerir ou abolir a carne, o objetivo é entender toda a trajetória percorrida pelo mantimento.

“Mais do que simplesmente discutir ‘comer ou não comer carne’, precisamos discutir como essa carne é produzida, quais práticas são utilizadas e como ciência, produtores, profissionais e consumidores podem contribuir para um sistema alimentar mais sustentável.”

CICLO DO CARBONO

Um dos tópicos investigados por Clara e retratados na literatura de A Carne Nossa de Cada Dia diz respeito ao diagrama que contrapõe o ciclo do carbono bovino ao dos energéticos fósseis.

Nos moldes de criação a pasto, o carbono presente no ar é absorvido pelos vegetais através da fotossíntese. Ele é transferido aos animais no momento da pastagem e retorna ao meio ecológico por vias diversas.

Ao longo da fermentação entérica, os bovinos geram metano, expelido primariamente mediante a eructação. Visto que o metano atua como gás estufa, faz-se imperativo contabilizá-lo na mensuração das pegadas ecológicas da pecuária.

Apesar disso, Clara pontua a relevância de se discernir a origem desse elemento químico.

“No caso dos bovinos, estamos falando de um ciclo biogênico de carbono, diferente dos combustíveis fósseis, que transferem para a atmosfera carbono que estava armazenado no subsolo há milhões de anos.”

Essa constatação não exime de importância as descargas gasosas oriundas da bovinocultura. O metano continua exercendo influência no aquecimento global, exigindo monitoramento ambiental.

A distinção reside na mecânica do carbono envolvido. Na via biogênica, há uma circulação contínua entre a atmosfera, a flora, a fauna e a terra. Em contrapartida, a queima de fósseis injeta no ar compostos mantidos em clausura geológica secular.

SOLO SAUDÁVEL

Dentro dessa engrenagem climática, o terreno agrícola cumpre uma função de suma importância.

As áreas de pastagem removem dióxido de carbono do ar através do processo fotossintético. Uma fração desse total pode ser fixada na estrutura vegetal, nas raízes e nos teores orgânicos do solo.

É exatamente nesse ponto que o manejo adequado das pastagens assume relevância. “A pastagem retira CO₂ da atmosfera pela fotossíntese e parte desse carbono pode ficar armazenada nas raízes e na matéria orgânica do solo.”

Segundo a especialista, a revitalização de terras degradadas e a administração correta podem estimular o acúmulo de carbono subterrâneo, gerando vantagens para o próprio ecossistema produtivo.

“Pastagens bem manejadas e a recuperação de áreas degradadas podem contribuir para aumentar os estoques de carbono no solo, o que é benéfico para o meio ambiente, pois melhora a qualidade do solo e favorece uma produção pecuária mais sustentável.”

Adicionalmente, o terreno colabora em dinâmicas de retenção hídrica, ciclagem de nutrientes e proliferação de microrganismos benéficos.

Contudo, a cientista faz um alerta prudente: a retenção de carbono não pode servir de justificativa para decretar a anulação integral das emissões pecuárias. “Isso não significa que o sequestro de carbono simplesmente anule as emissões dos bovinos, mas mostra que precisamos avaliar o sistema produtivo como um todo.”

Portanto, qualquer veredito técnico precisa abranger parâmetros edafoclimáticos, práticas de manejo, nutrição, índices de produtividade e estado vegetativo das pastagens.

ATUAÇÃO VETERINÁRIA

É por meio dessa ótica integrativa que o exercício do médico veterinário adquire uma amplitude frequentemente ignorada pelo consumidor final.

O vigor físico e o bem-estar dos bichos mostram-se diretamente atrelados à performance econômica da atividade. Plantéis com boa sanidade tendem a exibir melhores índices produtivos, ao passo que a profilaxia evita prejuízos e otimiza o uso de insumos.

As atribuições da carreira englobam ainda nutrição, reprodução, controle sanitário, biossegurança e consultoria técnica aos pecuaristas.

Para Clara, a prestação de serviços veterinários precisa manter sintonia com essas múltiplas frentes.

“Como veterinária, acredito que nosso papel é justamente trabalhar para produzir mais e melhor, reduzindo a intensidade das emissões e tornando a pecuária cada vez mais eficiente e sustentável.”

Isso demonstra que o especialista impacta tanto a higidez singular de cada animal quanto a engrenagem de todo o sistema agropecuário.

No tocante à manufatura alimentar, tal esforço reflete-se na segurança dos artigos que suprem o mercado consumidor.

Dessa forma, o profissional da área transita por elos de uma cadeia que nasce no campo e culmina diretamente na nutrição da sociedade.

PRODUÇÃO EFICIENTE

Sob a ótica de Clara, o grande desafio da agropecuária moderna reside em elevar os volumes de produção com sustentabilidade, mitigando a intensidade poluidora e otimizando o aproveitamento dos recursos naturais.

Tal meta demanda a convergência entre conhecimento tecnológico, rigor científico e adoção de boas práticas no campo.

Aprimorar a dieta animal, zelar pelo bem-estar, recuperar coberturas vegetais, manejar o solo de forma correta e aplicar inovações de rendimento constituem passos viáveis para modelos produtivos ecologicamente viáveis.

A busca por eficiência revela-se crucial por mensurar a proporção entre o mantimento obtido, os insumos aplicados e os poluentes gerados.

Nesse panorama, rotinas adequadas de manejo elevam simultaneamente os patamares econômicos e ecológicos.

A pesquisadora reitera a relevância da ciência nessa jornada.

“Precisamos aproximar a sociedade da realidade do campo. É importante que as pessoas entendam que existem diferentes formas de produzir e que a ciência pode ajudar a encontrar caminhos para uma produção cada vez mais eficiente.”

ESCOLHAS CONSCIENTES

As discussões acerca da sustentabilidade na pecuária repercutem igualmente junto ao público consumidor.

Dados precisos sobre procedência, métodos de criação, manejo e controle sanitário auxiliam os cidadãos a perceberem a pluralidade de realidades existentes no setor rural.

A oferta de alimentos resulta de deliberações conjuntas entre criadores, técnicos, indústrias, governos e compradores.

Por essa razão, democratizar o acesso à informação é imprescindível para que as decisões de compra sejam guiadas por fatos, e não por preconceitos ou generalizações infundadas.

A obra literária que embasa parte das pesquisas da doutoranda cumpre o papel de estimular o pensamento crítico, encorajando questionamentos sobre os métodos de fabricação e os reflexos de cada modelo produtivo.

Em suma, trata-se de um diálogo que requer aproximação entre os diversos segmentos sociais.

“Precisamos discutir como ciência, produtores, profissionais e consumidores podem contribuir para um sistema alimentar mais sustentável.”

Durante as celebrações do Dia do médico veterinário, essa se consolida como uma das mensagens primordiais: a profissão vai muito além do cuidado individualizado dos bichos. Ela atua ativamente na defesa sanitária, na garantia de comida segura, no fomento à produtividade e na consolidação de um equilíbrio duradouro entre a fauna, a humanidade e o meio ambiente.

Original em Radio Caçula

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