No Dia Mundial do Cachorro, histórias emocionantes de animais que sofreram violência e abandono em Três Lagoas destacam um processo de recuperação profundo. No Centro de Reabilitação Animal, esses cães não só curam suas feridas físicas, mas também reaprendem a confiar em humanos antes de serem encaminhados para adoção e um novo lar.
Enquanto algumas lesões demandam apenas cuidados veterinários, outras exigem tempo, paciência e muito afeto para cicatrizar. Em Três Lagoas, o Centro de Reabilitação Animal oferece a cães que experienciaram o lado mais cruel do ser humano – por abandono, violência e maus-tratos – a chance de compreender que o toque humano pode ser uma fonte de carinho e não de dor.
A equipe do Perfil News, nesta quarta-feira (26), Dia Mundial do Cachorro, documentou de perto trajetórias que, embora tivessem início no medo e na dor, agora apontam para um futuro mais promissor.
Vinculado ao Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Três Lagoas, o Centro de Reabilitação Animal recebe cada cão com uma bagagem de vida particular e, muitas vezes, desconhecida. Há aqueles com lesões evidentes e outros que manifestam traumas comportamentais, como tremores, isolamento e aversão à proximidade, temendo até mesmo quem tenta estender a mão. O trabalho ali transcende o tratamento físico, focando na restauração da confiança.
Quando o medo chega junto com o animal
Maria do Socorro Oliveira Lima, gestora do Centro de Reabilitação Animal, monitora de perto essa jornada de recuperação todos os dias. Ela relata que a maior parte dos animais acolhidos provém de situações de maus-tratos: "São animais resgatados após denúncias, visitas realizadas pela equipe, prisão dos agressores e, finalmente, o recolhimento do animal para nosso centro", detalha.
Foto: João Pedro Oliveira
Maria descreve que muitos cães chegam ao centro em estado de terror: "Muitos animais chegam extremamente amedrontados, assustados e aterrorizados. Na maioria das vezes, desconhecemos os traumas que eles enfrentaram", afirma.
Por essa razão, a pressa é deixada de lado. Nos dias iniciais, o respeito ao espaço e aos limites de cada cão é primordial. A equipe se aproxima gradualmente, permitindo que o animal sinta-se seguro em seu próprio ritmo.
A gestora explica: "Ao chegarem, eles são mantidos separados. Realizamos a aproximação no tempo deles, para minimizar o estresse, já que a maioria chega em um estado muito tenso. Com o passar do tempo, conseguimos conquistar a confiança deles".
Essa recuperação é um processo delicado, construído através de pequenos gestos. O cão que inicialmente se afastava ao ver uma mão estendida, aos poucos aceita um afago. Aquele que se escondia, começa a se aproximar. O olhar outrora constantemente assustado, gradualmente cede espaço para a curiosidade e a confiança.
Valentim: o medo que deu lugar à confiança
Uma das histórias que marcou profundamente a equipe é a de Valentim. Esse cão chegou ao Centro demonstrando pavor de homens, exigindo meses de dedicação e aproximação gradual para que pudesse reconstruir sua confiança.
O tempo desempenhou um papel crucial, reparando os danos que a violência tentou impor. Valentim foi reabilitado e, ao reconquistar a confiança, encontrou o que muitos outros animais no centro ainda aguardam: um lar definitivo.
Este é, precisamente, o cerne de todo o trabalho realizado. O objetivo não é apenas resgatar os animais de condições de maus-tratos, mas também prepará-los para um novo começo.
De vítimas a integrantes de uma nova família
Além de lidar com casos de maus-tratos e vulnerabilidade, o Centro estabelece parcerias com protetores independentes e organizações de proteção animal em Três Lagoas.
O local também serve como lar temporário para cães resgatados das ruas, oferecendo um ambiente seguro para tratamento e espera por adoção.
Maria explica o fluxo: "Os protetores retiram esses animais da rua, os levam ao veterinário e realizam todo o processo inicial. Nós funcionamos como um lar temporário. Eles permanecem aqui, são reabilitados e, uma vez adotados, partem para seus novos lares".
O desafio, no entanto, é considerável.
A demanda por vagas excede a capacidade do centro, resultando em superlotação. Outra dificuldade reside em encontrar famílias que aceitem adotar cães de porte médio e grande, que constituem grande parte dos animais disponíveis. Mesmo diante desses obstáculos, novas histórias de vida continuam a ser escritas.
Conforme Maria, a gestão atual já conseguiu a adoção de mais de 50 animais. "São mais de 50 vidas que trocaram o canil por quintais, camas, brinquedos e, o mais importante, uma família", celebra.
Foto: João Pedro Oliveira
Adoção não é impulso: é compromisso
A fim de garantir que um novo começo não se transforme em outro abandono, o processo de adoção é conduzido com seriedade. Interessados em adotar um cão passam por uma avaliação rigorosa antes de levá-lo para casa. O contato inicial pode ser feito via WhatsApp da Prefeitura. Em seguida, um questionário avalia se o potencial tutor dispõe de espaço adequado, tempo, recursos financeiros e estrutura para arcar com a responsabilidade de um animal.
Maria observa que "muitas pessoas que nos procuram acabam compreendendo a magnitude da responsabilidade envolvida na adoção e desistem. Acredito que essas são as pessoas que, de fato, não estão preparadas para adotar".
Decidir não prosseguir nesta fase pode prevenir um sofrimento futuro ainda mais intenso. Adotar implica em um compromisso de longo prazo. Maria aconselha: "Hoje, o animal de estimação é como um filho, uma extensão da família. Portanto, adote com convicção. Tenha a certeza absoluta de que ele viverá por 10 a 20 anos e será seu fiel companheiro por toda a vida".
Após a aprovação, o candidato à adoção encontra o cão. Se houver compatibilidade, a equipe do Centro acompanha a formalização da adoção e efetua a entrega do animal na residência do novo tutor.
Foto: João Pedro Oliveira
Quando o abandono também vira ferida
As marcas não se limitam à pele. A equipe frequentemente se depara com cenas comoventes de animais que chegam ao Centro após serem deixados por suas próprias famílias. Há casos em que os cães passam dias a fio chorando e uivando de tristeza.
Maria relata a angústia: "O animalzinho não consegue se comunicar verbalmente, não sabe pedir ou expressar seus sentimentos. Sabemos que os animais são sencientes e sentem o abandono profundamente. Recebemos cães que uivam e choram por dias, o que é de partir o coração".
Por essa razão, caso uma família não consiga mais manter um animal, a recomendação é buscar auxílio. Protetores, associações e redes de apoio podem oferecer suporte na busca por um novo lar. Jamais se deve considerar o abandono de um cachorro na rua como uma solução.
Uma denúncia pode mudar o final da história
Muitos dos cães que hoje recebem afeto no Centro só puderam ser resgatados da violência graças à atitude de alguém que fez uma denúncia.
Denúncias de maus-tratos podem ser realizadas junto ao setor de Bem-Estar Animal, através do telefone (67) 98139-0870. Para casos mais severos ou que demandem ação imediata, a orientação é contatar a polícia.
Um simples telefonema tem o poder de transformar a continuidade do sofrimento em um novo capítulo de vida. Maria enfatiza: "Assim que eles chegam aqui, considero que já estamos reescrevendo uma nova história para eles".
Fotos: João Pedro Oliveira
Essa talvez seja a descrição mais precisa do que ocorre nos bastidores do Centro de Reabilitação. Embora ninguém possa apagar o passado desses animais, as cicatrizes podem persistir e alguns temores podem demorar a sumir.
Contudo, o passado não mais dita o futuro. No Dia Mundial do Cachorro, enquanto muitos lares celebram a presença de seus animais, dezenas de cães em Três Lagoas aguardam por algo singelo, mas capaz de revolucionar suas vidas: uma segunda oportunidade. Para alguns, essa chance já se concretizou; para outros, ela pode surgir a partir de uma visita, um encontro e a decisão de abrir as portas de um novo lar.
Como adotar
Interessados em conhecer os cães disponíveis para adoção podem contatar o Centro de Reabilitação Animal via WhatsApp, no número (67) 98139-0738. O serviço está ativo de segunda a sexta-feira, das 7h às 16h.
Em 5 de setembro, os animais do Centro terão a oportunidade de participar de um evento na Dog Inbox, cujo objetivo é promover a interação entre os cães reabilitados e potenciais adotantes.
Adotar não altera o que já passou, mas tem o poder de transformar tudo o que está por vir.
Foto: João Pedro Oliveira
(*) Pollyanna Eloy