Curadoria Inteligente
10/03/2026 | 6 min leitura

Estudo detalha prevenção ao HIV em cidades impactadas pela rota da celulose

Pesquisa da UFMS analisa o impacto do crescimento da indústria de celulose na prevenção ao HIV em cidades do MS.

Estudo detalha prevenção ao HIV em cidades impactadas pela rota da celulose

Pesquisa da UFMS investiga como o desenvolvimento afeta a saúde em municípios do leste do estado

O rápido aumento populacional em cidades do leste sul-mato-grossense, provocado pela expansão da indústria de celulose, impulsionou um novo estudo sobre a prevenção do HIV na região. A pesquisa será liderada pelo antropólogo Guilherme Passamani, da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), e visa analisar como está ocorrendo o acesso e a utilização da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV) em cidades cortadas pelo chamado corredor da celulose.

Intitulado “Uma etnografia sobre a PrEP ao HIV na Rota da Celulose em Mato Grosso do Sul”, o projeto receberá um investimento de R$ 80 mil da Fundect (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul) e deverá ser desenvolvido ao longo de dois anos.

A pesquisa terá uma abordagem qualitativa e usará o método etnográfico, comum na antropologia, que envolve a observação de campo, conversas informais, entrevistas e a criação de laços com os participantes. O objetivo é compreender, de forma mais aprofundada, como a prevenção ao vírus da Aids está sendo acessada e administrada em cidades que passaram por transformações aceleradas nos últimos anos.

De acordo com Passamani, o estudo pretende observar como o SUS (Sistema Único de Saúde) tem atuado nesse processo de expansão da profilaxia para o interior do estado. A PrEP é um medicamento utilizado para prevenir a infecção pelo HIV e, historicamente, foi primeiramente introduzida em grandes centros urbanos.

“É uma medicação que chega primeiro nas capitais e nas grandes cidades. A interiorização desse tipo de profilaxia geralmente é mais lenta”, explica o pesquisador. “No entanto, podem surgir situações extraordinárias, como o que ocorre nas cidades da rota da celulose, que talvez demandem respostas mais rápidas”.

A pesquisa deve abranger os municípios de Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Paranaíba e Inocência, onde a medicação já é dispensada. A equipe está estabelecendo os primeiros contatos com os gestores locais para possibilitar a participação das cidades no estudo e submeter o projeto ao comitê de ética.

Crescimento acelerado

Segundo o pesquisador, a expansão industrial modificou profundamente a dinâmica social dos municípios localizados ao longo do corredor da celulose. O aumento da população, em especial a masculina, e o intenso fluxo de trabalhadores podem impactar diretamente a demanda por serviços de saúde e políticas de prevenção.

Em Ribas do Rio Pardo, por exemplo, uma cidade de 20 mil habitantes ganhou cerca de 10 mil moradores no pico da obra da fábrica da Suzano. Em Inocência, cidade com uma população de 8 mil pessoas, a obra da Arauco atraiu 16 mil trabalhadores.

“O número de pessoas nessas cidades cresceu muito rápido, mas os serviços de saúde permanecem praticamente os mesmos. As UBS (Unidades Básicas de Saúde), UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) e centros de testagem não cresceram na mesma proporção”, afirma.

Esse cenário pode gerar desafios adicionais para o sistema público de saúde, especialmente em áreas relacionadas à prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. O estudo também busca investigar mudanças nos comportamentos sociais e nas relações que podem influenciar a exposição ao vírus.

Quem usa

Outro aspecto fundamental da pesquisa é compreender se o perfil dos usuários da PrEP se altera em contextos de interiorização. Atualmente, de acordo com Passamani, o acesso ao medicamento no país ainda está concentrado em um grupo bastante específico.

“Apesar de ser uma medicação disponível para toda a população, os principais usuários são homens gays, jovens, brancos, com nível superior e de classe média”, explica.

A pesquisa visa verificar se, em regiões marcadas por uma forte presença de trabalhadores migrantes e rápidas mudanças sociais, esse perfil se expande ou permanece restrito.

Entre as questões que norteiam o estudo, estão como o acesso ao medicamento ocorre, como ele é utilizado e de que maneira os serviços de saúde locais gerenciam essa política de prevenção.

Escuta

A investigação envolverá tanto os usuários da PrEP quanto os profissionais da rede pública de saúde. A equipe planeja conversar com farmacêuticos, enfermeiros, médicos e outros trabalhadores diretamente envolvidos na distribuição do medicamento, além das pessoas que utilizam o serviço.

“Queremos entender como é o acesso, como se dá a utilização e como funciona a gestão dessa política de prevenção nesses contextos”, afirma o pesquisador.

Para ele, a compreensão dessas dinâmicas é essencial para aprimorar as políticas públicas. “Não basta afirmar que a PrEP é para todos. Existem contextos específicos em que ela precisa ser trabalhada com mais atenção”.

Pesquisa maior

O estudo em Mato Grosso do Sul faz parte de um projeto mais amplo, denominado PrEP na América do Sul, coordenado pela Universidade do Estado do Amazonas. Nesse projeto maior, pesquisadores estão investigando o acesso à profilaxia em diferentes cidades e regiões de fronteira.

Em Mato Grosso do Sul, a equipe também está desenvolvendo estudos em Campo Grande, Corumbá e Ponta Porã, além de localidades internacionais como Pedro Juan Caballero, no Paraguai, e Cochabamba, na Bolívia.

De acordo com Passamani, os primeiros dados desse projeto mais amplo poderão servir de comparação para a pesquisa na rota da celulose.

Início previsto

Apesar de já estar em fase de preparação, o estudo sobre a rota da celulose ainda precisa ser aprovado pelo Comitê de Ética e ter as parcerias com os municípios formalizadas. Por isso, a previsão é que o trabalho de campo comece entre maio e junho.

A equipe responsável é formada por pesquisadores de diversas instituições e inclui estudantes de graduação, uma pesquisadora de pós-doutorado, além de professores da UFMS e da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados).

Para o pesquisador, o estudo pode auxiliar na orientação das políticas públicas em regiões que vivenciam transformações rápidas e profundas. “Quando há grandes mudanças sociais e um aumento da circulação de pessoas, a dinâmica da saúde também se altera”, afirma. “Compreender essas mudanças é essencial para que as políticas de prevenção se tornem mais eficazes”.

Original em Perfil News

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