Muito além da celulose, as florestas plantadas abastecem cadeias industriais estratégicas, contribuem para a preservação ambiental e colocam Três Lagoas (MS) entre os principais polos mundiais da bioeconomia e da produção florestal sustentável
As florestas de eucalipto cultivadas desempenham um papel crucial no desenvolvimento sustentável do Brasil. Além de serem fundamentais para a produção de papel e celulose, essa matéria-prima renovável alimenta uma vasta gama de indústrias, incluindo a fabricação de móveis, painéis de madeira, geração de energia limpa, biomassa, biocombustíveis, produtos químicos e até mesmo o aço presente em utensílios domésticos. Adicionalmente, quando gerenciadas com responsabilidade, essas florestas cultivadas ajudam a diminuir a pressão sobre as matas nativas, capturam carbono da atmosfera e promovem a conservação do meio ambiente.
Nesse contexto, o estado de Mato Grosso do Sul, com destaque para a região de Três Lagoas, consolidou-se como um dos maiores centros florestais do mundo. O município, reconhecido globalmente como a Capital Mundial da Celulose, abriga grandes complexos industriais, tecnologias avançadas e um modelo de produção que combina alta competitividade econômica com responsabilidade socioambiental.
Florestas plantadas e conservação ambiental caminham juntas
Na imagem, é possível observar uma floresta de eucalipto plantada compartilhando espaço com uma reserva florestal de uma empresa de celulose em Três Lagoas (Foto: Arquivo/Perfil News).
Ainda persiste a ideia de que as florestas cultivadas concorrem com a vegetação nativa. Contudo, especialistas e organizações do setor defendem exatamente o oposto: o cultivo de florestas comerciais supre a crescente demanda por madeira de fontes renováveis, minimizando a exploração de ecossistemas naturais.
Esse conceito, promovido por iniciativas como o movimento “Florestas Pensadas”, evidencia que a produção e a conservação não são incompatíveis. Através de planejamento territorial, respeito às Áreas de Preservação Permanente (APPs), restauração de matas ciliares e adoção de boas práticas de manejo, a silvicultura contribui significativamente para a proteção dos recursos hídricos, a conservação da biodiversidade e a expansão dos serviços ecossistêmicos.
Além disso, as florestas plantadas desempenham um papel vital no combate às alterações climáticas. Durante seu crescimento, o eucalipto absorve dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera, armazenando-o em sua biomassa. Integrado a um ciclo produtivo sustentável, esse processo fortalece a economia de baixo carbono e potencializa a capacidade da indústria brasileira de oferecer produtos com menor impacto ambiental.
Profissionais da área destacam que os impactos ambientais estão diretamente ligados à forma como a atividade é conduzida, e não à espécie plantada. Um manejo adequado, combinado com o uso de tecnologia e monitoramento contínuo, assegura a manutenção da fertilidade do solo e da produtividade ao longo das sucessivas rotações de cultivo.
De acordo com Júnior Ramires, presidente da Reflore/MS, entidade que representa o setor florestal em Mato Grosso do Sul, a alta produtividade das áreas cultivadas é uma prova da sustentabilidade da prática.
“Se o eucalipto realmente secasse o solo, como explicar que hoje conseguimos produzir três ou quatro vezes mais do que se produzia há 50 anos na mesma área? A floresta que vocês estão vendo (clique aqui), provavelmente já está na sexta ou sétima rotação de cultivo, e o solo continua produtivo. Ele não secou, não se degradou e, pelo contrário, produz mais do que produzia décadas atrás. O que compromete a qualidade do solo não é o eucalipto em si, mas o manejo inadequado. Quando a floresta é conduzida com boas práticas de manejo, a produtividade se mantém e o solo é preservado.”
Da floresta ao aço: a presença do eucalipto em produtos do dia a dia
Embora seja amplamente conhecido pela produção de papel e celulose, o eucalipto está presente em uma vasta gama de produtos que fazem parte da rotina dos brasileiros – muitas vezes sem que o consumidor se dê conta.
Um dos exemplos mais surpreendentes é encontrado na indústria siderúrgica. A madeira de eucalipto é utilizada na produção de carvão vegetal, ou biocarbono, que atua como agente redutor em altos-fornos para transformar o minério de ferro em aço.
Diferentemente do carvão mineral, cujo uso gera altas emissões de gases de efeito estufa, o carvão vegetal proveniente de florestas plantadas representa uma alternativa renovável com menor impacto ambiental. Esse processo viabiliza a fabricação do chamado “aço verde”, empregado em talheres, panelas, eletrodomésticos, estruturas metálicas, veículos e inúmeros outros itens presentes no cotidiano.
A adaptabilidade do eucalipto também supre as demandas dos setores de construção civil, energia, embalagens, móveis, cosméticos, produtos farmacêuticos e bioquímicos, evidenciando a relevância dessa matéria-prima para uma economia baseada em recursos renováveis.
Três Lagoas consolida liderança mundial no setor florestal
A cidade de Três Lagoas figura entre os principais polos globais de bioeconomia e produção florestal sustentável (Foto: Perfil News).
Como referência internacional na indústria de base florestal, Três Lagoas abriga um dos maiores complexos de produção de celulose do mundo e atrai bilhões em investimentos que impulsionam o desenvolvimento econômico de Mato Grosso do Sul.
A expansão do setor transformou a região em um relevante polo de inovação tecnológica, geração de empregos, capacitação profissional e avanço logístico. Ao redor das grandes fábricas, estabeleceu-se uma cadeia produtiva sólida, que envolve viveiros de mudas, empresas de manejo florestal, transporte, pesquisa, serviços especializados e a produção de carvão vegetal.
Mais do que apenas produzir celulose, Três Lagoas tornou-se um símbolo de um modelo de desenvolvimento que busca o equilíbrio entre crescimento econômico, preservação ambiental e uso consciente dos recursos naturais.
Em um cenário global cada vez mais focado na descarbonização da economia, as florestas plantadas reafirmam sua importância. Renovável, versátil e sustentável quando gerenciado sob rigorosos critérios técnicos e ambientais, o eucalipto transcendeu o papel de mera matéria-prima da indústria de papel para se consolidar como um dos pilares da bioeconomia brasileira e um parceiro estratégico na construção de uma economia de baixo carbono.