Em 2025, a Organização Mundial da Saúde elevou a saúde social ao patamar de prioridade global, definindo-a como um componente tão vital quanto a saúde física e a mental para o ser humano.
Essa declaração foi muito bem recebida por estudiosos da área, e foi com ela que a cientista social Kasley Killam retornou ao SXSW em 2026, um dos maiores eventos de tecnologia, cultura e inovação do planeta.
Embora o conceito ainda não seja amplamente conhecido, o fenômeno que ele descreve é antigo e presente: a habilidade de nutrir laços genuínos e valiosos ao longo da vida.
As pesquisas acumuladas nas últimas décadas são contundentes. O isolamento e a solidão aumentam o risco de morte precoce em 29%. Indivíduos com relacionamentos fortes apresentam menor probabilidade de desenvolver doenças, enquanto aqueles sem vínculos têm até 53% mais chances de falecer por qualquer causa. Esses números deveriam estar no centro das políticas públicas de saúde, mas, até recentemente, eram negligenciados.
Contudo, a crise de isolamento raramente é vista como uma questão estrutural. E é nesse ponto que o mundo do trabalho ganha relevância. As condições de trabalho influenciam diretamente as condições de vida. Uma jornada exaustiva de doze horas diárias deixa pouco tempo para a amizade, para a família, para os vínculos que precisam de tempo para florescer. A regulação da jornada de trabalho, portanto, sempre foi mais do que uma questão econômica, sendo uma tentativa de assegurar que o trabalhador tenha tempo para ser pessoa.
No ambiente de trabalho, a saúde social também desempenha um papel importante. Equipes com laços autênticos são mais produtivas e resilientes. O sentimento de pertencimento coletivo reduz o adoecimento e a rotatividade. No entanto, muitas empresas operam sob modelos que promovem a fragmentação: metas individualizadas, comunicação ininterrupta e ausência de espaços para encontros presenciais. Programas de bem-estar corporativo raramente resolvem os problemas criados pela cultura organizacional.
O direito do trabalho, em sua essência, sempre compreendeu que proteger o trabalhador significa proteger sua vida integralmente. Incorporar a saúde social a essa perspectiva é reconhecer que a pessoa humana, fundamento da República conforme o artigo 1º da Constituição, se realiza no vínculo, na presença e na convivência. Afinal, somos feitos das conexões que estabelecemos.
por Taciela Cordeiro Cylleno é Juíza Federal do Trabalho há quase 15 anos, titular da 9ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, presidente da AJUTRA e membro do Conselho Pedagógico da EJUD-RJ