Curadoria Inteligente
30/08/2026 | 6 min leitura

Seguro rural perde espaço em MS e transfere risco financeiro ao campo

Com queda de 47% nas apólices em MS, produtores absorvem riscos climáticos e financeiros. Cortes orçamentários e El Niño intensificam a vulnerabilidade do agronegócio.

Seguro rural perde espaço em MS e transfere risco financeiro ao campo

O agronegócio de Mato Grosso do Sul está em alerta devido à significativa retração na contratação de seguro rural, que coincide com a proximidade do novo ciclo de plantio e a ameaça de eventos climáticos severos. Nos últimos doze meses, houve uma queda de 47% nas apólices contratadas no estado, seguindo um recuo nacional de 43%. Consequentemente, o produtor rural passou a assumir integralmente os riscos financeiros e de produtividade, sem a proteção do mercado segurador.

Essa diminuição da cobertura de proteção ocorre em paralelo a cortes orçamentários expressivos no Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural federal, que teve seu valor reduzido em cerca de 50% da estimativa original. Com custos operacionais elevados para o plantio e apólices mais caras, os agricultores priorizam outros gastos, deixando a segurança da lavoura em segundo plano. Tal situação é ainda mais crítica diante das previsões de um forte El Niño, que pode afetar seriamente a produtividade das safras em períodos cruciais, expondo a fragilidade de propriedades com alto endividamento.

O economista Hudson Garcia analisa os impactos dessa redução orçamentária, a forma como o mercado segurador lida com perdas sistêmicas e as estratégias essenciais para a sustentabilidade econômica das propriedades rurais em Mato Grosso do Sul, em um contexto de margens de lucro cada vez menores.

Impacto da Retração do Seguro Rural

Questionado sobre a queda de 43% na contratação de seguro rural no país (47% em MS) e seus impactos frente a riscos como o El Niño, Hudson Garcia destacou o paradoxo de tamanha retração em um período provável de severos efeitos climáticos. Ele explica que o produtor rural está internalizando o risco financeiro antes dividido com seguradoras, criando uma grande incerteza no fluxo de caixa e a possibilidade de prejuízos ao final da safra.

Influência do Apoio Governamental

O economista abordou a questão do alto custo e do baixo incentivo público ao seguro agrícola no Brasil. Ele apontou que a redução do apoio federal foi crucial para a retração, citando a diminuição do orçamento previsto para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, que passou de R$ 1,06 bilhão para R$ 565 milhões na LOA de 2025, impactando mais de 42 mil produtores. Essa queda de quase 50% encareceu as apólices, levando produtores a cortar esse gasto em meio a outros custos elevados de plantio, resultando em menos contratos e menor volume de indenizações.

Risco Apesar de Menos Indenizações

Garcia esclareceu que um menor volume de indenizações não indica um cenário climático favorável. Pelo contrário, com a ameaça do El Niño, transferir o risco de uma possível quebra de produtividade diretamente para a propriedade rural representa um perigo significativo, exigindo uma estrutura financeira robusta para mitigar tais impactos.

Complexidade e Custo do Seguro Agrícola

Sobre a complexidade e o custo do seguro agrícola para as seguradoras, Hudson Garcia explicou que, ao contrário dos seguros de automóveis com sinistros pontuais, o risco agrícola é sistêmico, afetando vastas regiões ou países inteiros em caso de quebra de safra. Para cobrir essas perdas em larga escala, as seguradoras necessitam de um capital muito alto, o que eleva o valor das apólices. Ele alertou os produtores a ficarem atentos às coberturas específicas, pois as opções mais baratas podem não contemplar eventos catastróficos. A escolha da apólice deve ser feita de acordo com a capacidade da fazenda de suportar perdas: propriedades com bom caixa podem optar por planos mais simples, enquanto as mais endividadas requerem coberturas abrangentes.

Probabilidade de Perdas Climáticas

As chances de ocorrência do El Niño são elevadíssimas, atingindo 96%, e o mercado de Chicago já incorpora essas probabilidades em seus preços. Embora a valorização das cotações possa parecer uma compensação para perdas de produtividade, Garcia ressaltou que a receita da fazenda é determinada pelo volume produzido multiplicado pelo preço, indicando que preços altos sem produção suficiente não garantem a rentabilidade da safra.

Atrasos no Calendário e Instabilidade Climática

Garcia enfatizou que o produtor rural deve agir como um gestor de portfólio de safra, pois atrasos no plantio da soja em setembro afetam diretamente o milho safrinha subsequente. Com custos anuais fixos (salários, combustível, defensivos), o objetivo da gestão deve ser a proteção da margem de lucro anual. Ele alertou para o perigo de assumir riscos climáticos sem proteção em tempos de margens apertadas, destacando a importância de analisar janelas de plantio, zoneamento de risco climático e usar o seguro como uma estratégia de transferência de risco.

Viabilidade e Necessidade do Seguro Rural

Para Hudson Garcia, o seguro rural é crucial para a mitigação de riscos, pois protege contra probabilidades, não fatos consumados. Ele propôs que cada produtor questione a capacidade de sua propriedade de suportar perdas sem comprometer sua continuidade, reforçando que pouquíssimas fazendas possuem a solidez financeira para absorver quebras de 10%, 20% ou 30% sem entrar em colapso.

Valorização das Commodities e Incertezas

Analisando a valorização das commodities, Garcia explicou que ela reflete a expectativa de estoques globais menores devido ao El Niño, sendo uma precificação da escassez. Ele alertou que as perdas não serão uniformes, afetando áreas estratégicas como a florada do café em Minas Gerais, com previsão de déficit hídrico e queda de 10% a 15% na produtividade. Embora o consumo mundial permaneça estável, preços altos sem produto para vender não geram receita. O economista enfatizou a importância de focar na gestão de custos internos e na proteção da margem de lucro, com o seguro garantindo a cobertura do risco produtivo e o equilíbrio financeiro da safra.

Original em RCN 67

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