Três Lagoas: Grande Força Industrial no Centro-Oeste
Por: Nathalia Santos
Conforme estimativa do IBGE de 2025, com aproximadamente 143,5 mil habitantes, Três Lagoas (MS) firmou-se como um polo industrial relevante no Centro-Oeste, mesmo com uma população e porte urbano menores que as capitais regionais.
A economia local é impulsionada pela presença de grandes indústrias, especialmente no setor de papel e celulose, que atraem bilhões em investimentos e contribuem significativamente para empregos, arrecadação e exportações.
Essa configuração é incomum para municípios de seu tamanho: uma cidade com uma população relativamente pequena, mas com uma estrutura industrial de grande porte e forte conexão com o mercado global.
A recente expansão industrial fortaleceu a importância de Três Lagoas na economia do Mato Grosso do Sul, consolidando-a como um dos maiores centros industriais do interior do Brasil.
Surge, portanto, a questão: Três Lagoas pode ser considerada a “capital industrial” do Centro-Oeste?
A resposta varia conforme o indicador. Em termos de tamanho econômico absoluto, capitais como Goiânia e Brasília são maiores. No entanto, ao analisar a participação industrial, a produção por habitante e o volume de exportações, Três Lagoas emerge como um competidor forte entre cidades bem maiores.
Indústria de Três Lagoas Supera a da Capital de MS
Um dado notável dessa transformação é o valor adicionado pela indústria.
Em 2021, conforme dados do PIB dos Municípios do IBGE e levantamentos da Semadesc, Três Lagoas alcançou aproximadamente R$ 5,7 bilhões em valor adicionado pela indústria, superando Campo Grande, que registrou cerca de R$ 4,35 bilhões nesse mesmo período, liderando o Mato Grosso do Sul.
Essa diferença é ainda mais notável ao comparar o tamanho das cidades: Campo Grande possuía mais de 897 mil habitantes no Censo de 2022, enquanto Três Lagoas contava com 132 mil.
Isso significa que um município com uma parcela da população da Capital gerava um valor industrial superior.
Esse fenômeno não é recente; Três Lagoas superou Campo Grande no PIB industrial ainda na segunda metade da década passada. Em 2017, dados do Governo de Mato Grosso do Sul já indicavam que a indústria de Três Lagoas movimentava aproximadamente R$ 4,23 bilhões, em contraste com os R$ 3,63 bilhões da Capital.
Essa inversão contribui para entender a transformação econômica que o município experimentou nos últimos anos.
Baixa População, Alta Produção Industrial
As unidades da Suzano em Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo (MS) constituem um dos maiores complexos de produção de celulose globalmente. Juntas, elas têm uma capacidade anual de 5,8 milhões de toneladas, com 3,25 milhões em Três Lagoas e 2,55 milhões em Ribas do Rio Pardo.
A magnitude desse fenômeno se torna ainda mais clara quando a população é levada em consideração.
Com base nos cerca de R$ 5,7 bilhões em valor adicionado industrial de 2021 e na população do Censo de 2022, Três Lagoas registrou aproximadamente R$ 43 mil em atividade industrial por habitante.
Embora seja uma aproximação devido à diferença nos anos das bases de dados, este indicador demonstra a elevada concentração industrial da cidade.
Ao comparar com as capitais do Centro-Oeste, o contraste se acentua.
Goiânia, por exemplo, possuía uma população dez vezes maior que a de Três Lagoas. Um estudo da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) indicou que a capital goiana tinha um PIB industrial de aproximadamente R$ 6,25 bilhões em 2018.
Isso mostra que a disparidade no tamanho industrial absoluto não acompanha a diferença populacional.
Outro diferencial de Três Lagoas é sua economia, fortemente focada na indústria, ao contrário das capitais, que têm estruturas econômicas mais diversificadas e uma grande participação do setor de serviços.
Celulose: O Motor Exportador
O comércio exterior é, sem dúvida, um indicador chave que insere Três Lagoas de forma proeminente no cenário econômico do Centro-Oeste.
Em 2025, Três Lagoas exportou US$ 3,05 bilhões, conforme dados da Prefeitura, com a celulose respondendo por mais de 90% desse total. O saldo comercial atingiu US$ 2,63 bilhões.
Esse desempenho posicionou Três Lagoas entre os maiores exportadores do Mato Grosso do Sul. Entre janeiro e outubro de 2025, a cidade foi responsável por 19,46% das exportações estaduais, segundo a Semadesc.
Para compreender a relevância desse número, basta observar outra capital regional de grande porte.
Goiânia, em 2024, exportou aproximadamente US$ 265,4 milhões, de acordo com o Governo de Goiás. Três Lagoas, em um único ano, superou esse valor em mais de dez vezes, demonstrando uma capacidade exportadora extraordinária para seu porte, mesmo considerando as diferenças nos anos e estruturas econômicas.
Este dado não implica que a economia de Três Lagoas seja maior que a de Goiânia, mas sim que sua especialização industrial gera uma notável capacidade exportadora para um município de seu tamanho.
Brasília: Um Contraste Industrial
A comparação com Brasília ilustra como a análise exclusiva do PIB pode obscurecer a verdadeira dimensão industrial de Três Lagoas.
Em 2025, Brasília, com quase 3 milhões de habitantes (IBGE), apresenta uma economia estruturalmente distinta, predominantemente focada em serviços e administração pública.
Estudos do IPEDF indicam que o setor de serviços contribui com a maior parcela do valor adicionado à economia da capital federal.
Três Lagoas, por sua vez, representa o extremo oposto.
Na cidade sul-mato-grossense, grandes indústrias lideram a economia, integradas a cadeias produtivas globais e nacionais. Trata-se de uma divergência de modelo econômico, não meramente de porte.
A Força Impulsora da Celulose
A Eldorado Brasil é reconhecida como uma das mais modernas, eficientes e competitivas unidades de celulose globalmente. A fábrica é autossuficiente em energia renovável e tem capacidade de produzir 1,8 milhão de toneladas de celulose anualmente.
A ascensão industrial de Três Lagoas é, sem dúvida, explicada pelo setor de celulose.
A instalação e ampliação de grandes fábricas converteram a cidade em um dos principais centros de celulose do Brasil. Contudo, essa dinâmica já transcende as grandes unidades fabris.
A estratégia do Governo de Mato Grosso do Sul de solidificar o “Vale da Celulose” tem atraído novos investimentos e fornecedores para a área.
Em 2025, o Estado registrava cerca de 1,75 milhão de hectares de florestas plantadas, de acordo com a Semadesc, uma expansão superior a cinco vezes em aproximadamente uma década.
O governo estadual prevê que os investimentos privados na cadeia da celulose excedam R$ 70 bilhões até 2028.
A área de influência industrial também se expandiu.
Além de Três Lagoas, municípios como Ribas do Rio Pardo, Inocência e Bataguassu integram agora esse novo polo industrial, com a presença de grandes companhias como Suzano, Arauco e Bracell.
Assim, Três Lagoas não está isolada, mas sim no epicentro de uma transformação econômica regional.
A Indústria Desenvolve sua Própria Cadeia Produtiva
Um indício de maturidade é o surgimento de empresas que se instalam na região não só por incentivos, mas para suprir diretamente as demandas das grandes indústrias locais.
Em 2026, a empresa chinesa Broad Wire, por exemplo, manifestou a intenção de construir uma fábrica em Três Lagoas para produzir arames para fardos de celulose.
Com um investimento estimado em R$ 130 milhões, a previsão é gerar cerca de 150 empregos diretos.
No mesmo ano, o Distrito Industrial teve a projeção de outros investimentos totalizando R$ 60,9 milhões, com a criação esperada de mais de 200 empregos diretos.
Esse é um movimento crucial, indicando que a indústria começa a fomentar uma segunda etapa de desenvolvimento.
Primeiramente, grandes fábricas se estabelecem. Em seguida, fornecedores, serviços especializados, transportadoras, empresas de manutenção e logística, entre outros negócios, gravitam em torno dessas indústrias.
Dessa forma, um polo industrial evolui de um mero conjunto de fábricas para uma robusta cadeia econômica.
O Impacto no Emprego
O setor industrial também se destaca no mercado de trabalho.
A FIEMS aponta que, em 2025, a indústria gerou mais da metade dos empregos formais em Mato Grosso do Sul.
Naquele ano, Três Lagoas registrou a criação de 466 novas vagas industriais.
Contudo, o município compartilha esse protagonismo com outras cidades que ingressam agora no ciclo industrial. Em 2025, Inocência criou 2.818 vagas industriais, e Ribas do Rio Pardo registrou 1.120.
Este dado ressalta uma mudança significativa: a pujança industrial, outrora concentrada em Três Lagoas, agora se irradia pelo leste do Mato Grosso do Sul.
Capital Industrial ou Centro de Nova Região?
Talvez a questão inicial precise ser reformulada.
Três Lagoas não detém o maior PIB do Centro-Oeste, nem a maior população, tampouco o maior parque industrial absoluto da região.
Porém, a cidade apresenta uma combinação peculiar.
Com cerca de 143 mil habitantes, a cidade gera bilhões em produção industrial, possui uma forte especialização produtiva, grandes indústrias, uma crescente cadeia de fornecedores e mais de US$ 3 bilhões em exportações anuais.
Desse modo, classificar Três Lagoas como a “capital industrial do Centro-Oeste” pode ser mais uma descrição de sua vocação econômica do que um posicionamento em um ranking absoluto.
Os indicadores apontam que a cidade transcende a definição de um mero polo industrial do Mato Grosso do Sul.
Atualmente, Três Lagoas é um expoente da interiorização da indústria brasileira, e a expansão do Vale da Celulose sugere que sua influência econômica irá além dos limites municipais.
A questão principal, então, não reside em determinar se Três Lagoas supera Goiânia, Cuiabá ou Brasília, mas sim em compreender como uma cidade com 143 mil habitantes pôde desenvolver uma indústria capaz de competir por destaque com as capitais de uma das regiões de maior crescimento no Brasil.