Por Ricardo Ojeda
12:27 - 15/06/2026
Após anos de promessas frustradas, a reativação da fábrica de fertilizantes de Três Lagoas ganha força com a mobilização no canteiro de obras e a declaração pública do Presidente da República.
Após mais de dez anos de inatividade, uma série de anúncios de retomada sem concretização e a crescente desconfiança da comunidade, a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN3), localizada em Três Lagoas, começa a apresentar evidências reais de que o reinício das obras, há muito esperado, finalmente está em andamento.
Este projeto, tido como um dos maiores complexos industriais implantados em Mato Grosso do Sul, teve sua construção paralisada em dezembro de 2014, quando já atingia aproximadamente 80% de sua conclusão. Desde a interrupção, diversos governos e administrações da Petrobras anunciaram potenciais reinícios, porém, nenhuma iniciativa progrediu de fato, intensificando o ceticismo tanto da população local quanto dos empresários afetados pelos prejuízos da paralisação.
Contudo, a conjuntura atual se mostra distinta. Além da concreta mobilização para reativar o empreendimento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou publicamente o empenho do governo federal em finalizar a construção da fábrica. Essa declaração foi veiculada em um vídeo postado na página oficial da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, na rede social LinkedIn.
Durante uma visita à Fafen de Sergipe, uma unidade de fertilizantes da estatal que já retomou suas operações, Lula enfatizou a relevância estratégica da produção doméstica de ureia para a agricultura do Brasil e mencionou especificamente a planta de Três Lagoas.
“Lamentavelmente, o Brasil encerrou as atividades desta fábrica, de outra na Bahia, e de outra no Paraná, e não finalizou a unidade que estávamos construindo em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. Agora, estamos reiniciando todos esses projetos e concluiremos a de Três Lagoas.”, afirmou o presidente.
De forma informal, Lula mostrou uma porção de ureia e fez um comentário que rapidamente gerou grande repercussão nas plataformas digitais.
“Observem isso aqui: é ureia. Não se trata de açúcar, nem de sal, nem de sorvete de coco ou de tapioca. Isso é ureia”, disse em tom de brincadeira.
No decorrer do vídeo, o presidente defendeu a autonomia do Brasil na produção de fertilizantes, argumentando que a reativação das unidades da Petrobras reforça a soberania do país e diminui a dependência de importações em um segmento considerado crucial para o agronegócio.
Magda Chambriard, presidente da Petrobras, também sublinhou a importância da empresa estatal no reinício da produção de fertilizantes no Brasil.
“Estamos restaurando o caráter estatal da Petrobras”, afirmou, complementando que a companhia visa operar em consonância com os interesses da população brasileira.
Histórico de promessas e frustração
Na cidade de Três Lagoas, a notícia é acolhida com uma combinação de esperança e prudência. Nos últimos anos, os moradores testemunharam uma série de comunicados sobre a UFN3, incluindo sua venda, parcerias, retomada e conclusão, sem que nenhum desses anúncios resultasse na efetiva reativação do projeto.
A construção, que em seu auge empregou milhares de pessoas, foi interrompida, gerando um legado de perdas econômicas, desocupação e incerteza jurídica. Os efeitos dessa paralisação atingiram diretamente dezenas de empresas da região que haviam fornecido serviços ou materiais para o empreendimento.
Diante disso, a confirmação oficial do Presidente da República é considerada um marco significativo, principalmente por ser acompanhada de medidas concretas visando o reinício do projeto.
Uma vez concluída, a UFN3 poderá fabricar cerca de 1,2 milhão de toneladas de ureia e aproximadamente 70 mil toneladas de amônia anualmente, contribuindo para diminuir a dependência do Brasil na importação de fertilizantes nitrogenados e para fortalecer a cadeia de produção do agronegócio brasileiro.
Além de seu valor estratégico para o país, a finalização da unidade é esperada para gerar milhares de postos de trabalho, tanto diretos quanto indiretos, impulsionando a economia de Três Lagoas e de toda a região leste de Mato Grosso do Sul.
Empresários cobram solução para dívida milionária
Contudo, o reinício da construção também trouxe à tona uma antiga demanda dos empresários locais que não receberam pelos serviços prestados na etapa inicial do projeto.
Aproveitando uma publicação de Magda Chambriard no LinkedIn, o advogado Humberto Garcia Junior, que representa mais de 80 empresas credoras, postou um comentário direcionado à presidente da Petrobras, exigindo uma resolução para a dívida pendente.
De acordo com ele, os danos financeiros acumulados superam os R$ 150 milhões e afetaram diretamente dezenas de fornecedores na área.
Ele declarou: “Celebramos o reinício das obras da UFN3, mas não podemos ignorar aqueles que foram deixados para trás. A Petrobras possui um débito de aproximadamente R$ 150 milhões com os empresários de Três Lagoas, somado a um dano moral incalculável.”
No texto, o advogado salientou que vários empresários investiram fundos próprios, entregaram bens e serviços e confiaram no projeto, mas acabaram enfrentando insolvência e severas dificuldades financeiras após a paralisação da construção.
“Ao anunciar a retomada, a ausência de menção a esses credores é profundamente notável”, pontuou.
Humberto Garcia de Oliveira reiterou, ainda, que o conjunto de empresários está disponível para diálogo e indagou qual será a abordagem da atual administração da Petrobras em relação às famílias e empresas que ainda aguardam uma resolução para a situação.
Essa cobrança remete a um dos capítulos mais delicados da trajetória da UFN3. Embora a reativação da obra simbolize uma nova visão de desenvolvimento para Três Lagoas e para o Brasil, a esperança dos credores é que o reinício do empreendimento venha junto com a reparação dos danos causados pela interrupção.
Depois de anos de promessas não cumpridas, a população de Três Lagoas acompanha os eventos com grande interesse. A distinção, neste momento, reside no fato de que os indícios de retomada não se restringem mais ao âmbito político: eles já são visíveis no canteiro de obras, renovando a expectativa de que a UFN3, enfim, deixe de representar um símbolo de frustração e se concretize.