A preparação para os impactos do El Niño no ciclo 2026/2027 reuniu representantes do Governo Federal, do Executivo estadual e da sociedade civil nesta terça-feira (1º), em Campo Grande.
O evento, nomeado “Diálogos Regionais” e sediado no Complexo Multiuso da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), ressaltou abordagens distintas para mitigar os efeitos climáticos em Mato Grosso do Sul. Enquanto a União concentrou seus comunicados no fortalecimento da assistência social, na compra de alimentos da agricultura familiar e na proteção de comunidades originárias, o governo estadual enfatizou a urgência de suporte econômico e ferramentas financeiras para o setor agropecuário.
Essa etapa integrou uma série de discussões nacionais organizadas pela Secretaria-Geral da Presidência da República e contou com a presença do ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias; do secretário-executivo do Ministério dos Povos Indígenas, Eloy Terena; além do titular da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Artur Falcette.
Incerteza climática e demandas do setor produtivo
Representando o governo estadual, Artur Falcette destacou a incerteza do clima às vésperas da safra de verão. Segundo o secretário, as variações de temperatura atípicas e o regime de chuvas localizadas complicam o planejamento agronômico no período em que as máquinas começam o plantio de soja.
“O principal efeito do El Niño dessa intensidade é a imprevisibilidade. Em Mato Grosso do Sul temos um calendário agrícola bem definido e, nos próximos 30 dias, a soja estará espalhada por todo o Estado. Recentemente tivemos onda de calor, depois frio e chuva atípica no fim de agosto, o que não acontecia há anos. Isso atrapalha o planejamento e traz o risco de escassez hídrica pontual”, afirmou Falcette.
O secretário contextualizou ainda que os agricultores locais lidam com os reflexos de duas safras passadas de soja que registraram perdas, e apontou que os principais mecanismos de alívio dependem da esfera federal.
“O Estado trabalha com um plano focado no combate a incêndios, com olhar especial para a Costa Leste e o Pantanal. Contudo, instrumentos que tratem de securitização, subvenção de crédito e adaptações no Plano Safra precisam ser definidos pela União. Seguimos dialogando e apontando essa urgência, pois ainda não tivemos sinalizações tangíveis sobre essas medidas financeiras”, ponderou Falcette.
Durante o evento, a ausência de representação do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e de entidades patronais rurais foi tema de discussão na coletiva. Em esclarecimento, o ministro Wellington Dias informou que a interlocução federal é colegiada, com conselhos permanentes que incluem municípios, estados e a iniciativa privada para abordar prevenção e infraestrutura.
Segurança alimentar e compras públicas
Do lado federal, a pauta priorizou o combate à fome e a garantia de abastecimento em momentos críticos. Wellington Dias anunciou a implantação da plataforma Brasil Contrata Mais, que direciona a compra governamental de cestas básicas diretamente de cooperativas da agricultura familiar.
“O El Niño traz riscos em duas pontas: muita chuva e enchentes em certas áreas, ou seca severa e ondas de calor em outras. Já vivenciamos impactos no arroz no Sul que pressionaram a inflação de alimentos. Aproveitamos a supersafra recente de milho para abastecer a Conab. Se houver quebras à frente, o país conta com estoques reguladores para amparar o produtor familiar e conter variações de preço para o consumidor”, ressaltou o ministro.
Proteção a terras indígenas e saneamento
A vulnerabilidade das comunidades tradicionais diante dos efeitos do El Niño foi abordada por Eloy Terena. O secretário destacou o reforço das estruturas de contenção de desastres no Pantanal e a atenção a demandas estruturais.
“Estruturamos brigadas indígenas em parceria com o Ibama, incluindo bases nas terras Ipegue e Kadiwéu, devidamente treinadas e equipadas para atuar na prevenção de incêndios florestais. Além disso, em localidades como a Reserva Indígena de Dourados — onde o recente surto de chikungunya já foi controlado —, autorizamos o início de obras estruturais para garantir o fornecimento de água potável, com recursos já repassados ao Estado”, concluiu Terena.
O ciclo de encontros da Presidência da República continuará em outros estados, enquanto Mato Grosso do Sul acompanha o progresso dos fatores climáticos nas lavouras e nas regiões de conservação.