Impulsionada pela celulose, MS ultrapassa US$ 10 bilhões em exportações, firmando-se como motor econômico estadual, conforme dados da Semadesc
Por décadas, a economia do Leste de MS baseou-se na pecuária, agricultura e transporte ferroviário, com a soja como principal produto. A industrialização, a partir dos anos 1990, transformou a região, centrando o processo em Três Lagoas.
Neste Dia da Indústria, a história da Costa Leste revela uma mudança impulsionada pelo setor frigorífico, agroindústria da soja e, notavelmente, a celulose, que valorizou as exportações, firmando a região como potência industrial.
O INÍCIO: FRIGORÍFICOS E EMPREGOS
Antes da celulose, a industrialização em larga escala engatinhava. Uma das pioneiras foi o Frigotel, fundado por Júlio Ferreira Xavier.
Em 1975, iniciou-se a construção do frigorífico, abatendo 80 animais/dia. Com o crescimento, abateu mil cabeças diariamente, empregando cerca de mil trabalhadores diretamente.
O Frigotel tornou-se símbolo de desenvolvimento social, oferecendo assistência médica, odontológica, refeitório e transporte aos funcionários, algo inovador na época.
A empresa também inseriu Três Lagoas no mercado internacional, exportando carne para países como Inglaterra, Itália, Suíça, Alemanha, Israel, Hong Kong e Singapura.
Naquele tempo, o frigorífico era uma das maiores fontes de renda e empregos do município, preparando o terreno para a industrialização nas décadas seguintes.
DA SOJA AO VALOR ADICIONADO
Após o setor frigorífico, outro marco foi a instalação da Matosul, esmagadora de soja, que posteriormente se tornou unidade da Cargill.
A soja se consolidou como a principal força econômica da região por muitos anos. No entanto, grande parte da produção era exportada in natura, com menor valor agregado.
A industrialização mudou essa situação.
Na gestão de Issam Fares, prefeito de Três Lagoas por dois mandatos (1997-2004), houve um notável salto industrial. Sua gestão foi crucial para o município, lançando as bases da industrialização com a infraestrutura necessária, como o gasoduto natural.
Foi nessa época que o município começou a se destacar como polo regional. A administração atraiu a primeira grande linha de produção para a cidade: a Fábrica da Mabel. Essa foi a primeira grande indústria em linha a se instalar no município, consolidando o início da vocação industrial local.
O trabalho de atração e consolidação de infraestrutura iniciado por Issam Fares pavimentou o caminho para que, logo após a sua gestão, Três Lagoas atraísse grandes indústrias de celulose que hoje são os pilares da economia local.
Em vez de apenas exportar matéria-prima, a região começou a agregar valor à produção por meio da transformação industrial. Esse movimento ganhou força especialmente com o setor de celulose, que elevou o patamar econômico da Costa Leste.
O BOOM INDUSTRIAL DA CELULOSE
O processo de industrialização acelerada de Três Lagoas começou a partir de 1997, impulsionado por políticas estaduais de atração de investimentos.
Mas foi nos anos 2000 que ocorreu o grande “boom” industrial, com a chegada das fábricas de celulose.
A combinação entre disponibilidade de terras, logística ferroviária, energia, água e florestas plantadas transformou Três Lagoas em referência nacional no setor.
A indústria da celulose provocou impactos profundos:
* geração de milhares de empregos diretos e indiretos;
* expansão do comércio;
* crescimento do setor imobiliário;
* aumento da arrecadação;
* investimentos em infraestrutura;
* fortalecimento dos setores de serviços e transporte.
Restaurantes, supermercados, hotéis, empresas de manutenção e transporte cresceram junto com a indústria. A cidade passou a atrair trabalhadores de várias regiões do país.
Além disso, os investimentos privados também ajudaram a impulsionar áreas como saúde, educação e projetos sociais.
COSTA LESTE: POTÊNCIA INDUSTRIAL DE MATO GROSSO DO SUL
Hoje, a região Leste de Mato Grosso do Sul responde por praticamente metade da força industrial do Estado.
Segundo dados da Fiems, a região reúne 18 municípios:
Água Clara, Anaurilândia, Aparecida do Taboado, Bataguassu, Bataiporã, Brasilândia, Cassilândia, Chapadão do Sul, Costa Rica, Inocência, Nova Andradina, Paraíso das Águas, Paranaíba, Ribas do Rio Pardo, Santa Rita do Pardo, Selvíria, Taquarussu e Três Lagoas.
Os números demonstram a dimensão econômica da industrialização:
* PIB industrial de R$ 11 bilhões;
* 43% de todo o PIB industrial de Mato Grosso do Sul;
* 35% de participação da indústria no PIB regional;
* 52,3 mil trabalhadores empregados diretamente;
* 1.656 empresas industriais ativas;
* massa salarial de R$ 2,46 bilhões.
Entre os principais segmentos industriais da região estão:
* construção civil;
* frigoríficos e produtos de carne;
* fabricação de celulose;
* biocombustíveis;
* energia e saneamento;
* indústria têxtil;
* plástico;
* calçados;
* eletrodomésticos;
* couro;
* açúcar e pescado.
DE POLO AGROPECUÁRIO A REFERÊNCIA INDUSTRIAL
A trajetória da Costa Leste de Mato Grosso do Sul ilustra como a industrialização transformou a dinâmica econômica regional.
Se antes a força econômica estava na produção agropecuária e na exportação de commodities, hoje o diferencial está no valor agregado gerado pela indústria.
E nesse cenário, Três Lagoas tornou-se símbolo dessa transformação: uma cidade que deixou a vocação agropecuária para se consolidar como uma das maiores referências industriais do país, especialmente no setor de celulose.
(*) Ricardo Ojeda e Nathália Santos, com informações FIEMS e Semadesc