A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul desarticulou um esquema milionário de sorteios clandestinos online, conhecido como Operação Rodas da Sorte. Em apenas seis meses, a rede chegou a movimentar mais de R$ 100 milhões.
A operação resultou no cumprimento de quatro mandados de prisão preventiva e 11 de busca e apreensão, realizados em Campo Grande, João Pessoa (PB) e Rio de Janeiro (RJ).
Entre os detidos em Campo Grande estão o influenciador digital Eduardo Rezende da Silva Razuk, de 32 anos, e seu irmão, Rafael Rezende da Silva Razuk, de 36 anos. Os outros dois alvos, ligados a empresas parceiras do esquema, foram presos na Paraíba e no Rio de Janeiro.
Por ordem judicial, aproximadamente R$ 500 milhões foram bloqueados das contas bancárias dos envolvidos, e cinco imóveis foram indisponibilizados. A polícia também apreendeu dois relógios de luxo e sequestrou 22 veículos de luxo, cujo valor estimado está entre R$ 15 milhões e R$ 20 milhões.
Como o esquema interestadual funcionava
As investigações da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DERCC) apontaram que o esquema operava clandestinamente nas redes sociais, especialmente Instagram e YouTube, desde 2019. Contudo, a partir de 2025, com o aumento das ações policiais contra influenciadores, o grupo começou a buscar métodos para disfarçar a ilegalidade.
Pedro Cunha, delegado titular da DERCC, detalhou que a organização procurou apoio externo para falsificar autorizações e planejar a lavagem de dinheiro e ocultação de bens:
“O influenciador passou a se associar com uma empresa no Rio de Janeiro e outra na Paraíba com o intuito de dar uma falsa roupagem lícita às rifas ilegais que praticava e sofisticar a forma de lavagem de dinheiro. As empresas eram utilizadas como forma de intermediar e fazer com que se aparentasse que tinha uma autorização que, na verdade, era ilegal.”
As investigações apontaram que o influenciador realizava até dois sorteios semanalmente, gerando lucros consideráveis a cada divulgação.
“Ele mesmo declara abertamente em suas redes que fatura, por média, em cada uma de suas rifas, aproximadamente 1 milhão e 900 mil a 2 milhões de reais. O patrimônio dele foi todo angariado pela contravenção e ele verdadeiramente enriqueceu às custas disso”, afirmou o delegado.
A legislação sobre sorteios com fins lucrativos
No Brasil, a legislação proíbe a venda de cotas ou rifas com finalidade de lucro privado. A autoridade policial informou que tal prática é permitida apenas em situações específicas de filantropia e mediante aprovação prévia da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda:
“Rifas no Brasil não podem ser praticadas com finalidade lucrativa. O que se permite são modalidades muito bem delineadas, com finalidade filantrópica e mediante autorização formal. Aqui a finalidade era exclusivamente o lucro. Qualquer que seja o nome que se dê, mesmo que chamem de ‘ação’, no fim das contas é prática de rifa ilegal.”
A Polícia Civil esclareceu que os compradores de boa-fé, que adquiriram cotas acreditando na legalidade dos sorteios, não enfrentarão responsabilidade criminal.
Crimes investigados e andamento das apurações
Os indivíduos presos são acusados de loteria não autorizada, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Ivan Barreira, diretor do Departamento de Polícia Especializada (DPE), ressaltou que as investigações se intensificaram após uma denúncia anônima e que não foram encontrados indícios de ligação entre o influenciador de Mato Grosso do Sul e facções criminosas:
“Houve um aprofundamento das investigações, fomos atrás dos órgãos competentes e acompanhamos os passos deles. Conseguimos uma robustez de provas bem maior para desarticular esse esquema no Estado.”
Com a apreensão de celulares, computadores e documentos em 13 locais, a polícia agora prossegue com a análise dos arquivos digitais para determinar a amplitude das transações financeiras e identificar possíveis novos participantes.