As informações do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública confirmam o crescimento nos registros de maus-tratos contra crianças em Mato Grosso do Sul. Com o novo estudo, o estado de MS alcançou a primeira posição no ranking nacional.
Enquanto o número de denúncias aumenta, a solução prometida pelas autoridades continua parada. Decorridos três anos do falecimento da menina Sophia Ocampo, o Centro Especializado de Atendimento à Criança e ao Adolescente em Campo Grande ainda não teve suas obras iniciadas.
O que revelam os números sobre maus-tratos infantis em MS
De acordo com o estudo, que apresenta dados compilados do ano passado, Mato Grosso do Sul registrou 1.593 casos de agressões contra crianças e adolescentes entre 0 e 17 anos. Este número representa um aumento de 8,5% em relação aos 1.471 registros do ano anterior.
Esse total se traduz em uma taxa de 206,5 ocorrências para cada 100 mil habitantes nessa faixa etária, um índice quase três vezes maior do que a média nacional, que foi de 77,4.
Diante desse panorama, o estado de Mato Grosso do Sul ocupa a primeira posição entre as unidades federativas mais violentas para a infância no Brasil, superando estados como:
- Rondônia: 197,3 casos por 100 mil
- Amapá: 187,6 casos por 100 mil
- Sergipe: 164,9 casos por 100 mil
- Santa Catarina: 160,7 casos por 100 mil
Análise dos dados por faixa etária em Mato Grosso do Sul
A seguir, a distribuição das estatísticas por idade elucida a gravidade do problema no estado:
- 0 a 4 anos: Houve 380 ocorrências em 2025 (taxa de 188,5 por 100 mil, contra 74,0 da média nacional).
- 5 a 9 anos: Esta faixa registrou o maior número absoluto e proporcional no estado, com 540 casos e taxa de 255,6 por 100 mil (a média brasileira para essa idade foi de 95,5).
- 10 a 13 anos: Foram contabilizados 410 incidentes, com uma taxa de 230,7 por 100 mil (enquanto no país foi de 85,4).
- 14 a 17 anos: Observou-se 236 casos e uma taxa de 138,5 por 100 mil habitantes (em contraste com 51,1 no cenário nacional).
Em contrapartida, estados como Ceará (7,1), Rio de Janeiro (37,1), Maranhão (38,0), Amazonas (39,6) e Pernambuco (40,2) mostraram as taxas gerais mais baixas de ocorrências no país.
Casos recentes evidenciam a persistência do problema em 2026
A situação não se limita a dados históricos; as investigações policiais em Mato Grosso do Sul continuam a registrar casos graves ao longo do ano atual:
- Abril (Campo Grande): Um bebê de 1 ano foi internado em condição grave com indícios de espancamento, levando à prisão da mãe e do padrasto.
- Maio (Nova Andradina): A mãe de um bebê de 7 meses foi presa depois que a criança deu entrada no pronto-socorro com uma costela fraturada e trauma craniano.
- Junho (Campo Grande): Uma recém-nascida de 3 meses foi hospitalizada após uma parada cardiorrespiratória, e os médicos identificaram diversos traumas pelo corpo.
- Julho (Campo Grande): Um profissional de enfermagem foi detido sob a acusação de agredir e torturar um adolescente de 14 anos com deficiência grave durante um atendimento em domicílio.
Investimento de R$ 10 milhões permanece sem execução
A ideia de construir um centro de atendimento integrado foi apresentada como uma resposta oficial em março de 2023, alguns meses depois do caso envolvendo Sophia. A criança chegou sem vida a uma unidade de saúde em Campo Grande, após ter sido atendida mais de 30 vezes por médicos com um histórico de violência, sem que o sistema de proteção conseguisse evitar o desfecho trágico.
O projeto previa a criação de um complexo de 5,9 mil metros quadrados em um terreno cedido pela União, localizado em frente à Casa da Mulher Brasileira. Essa instalação deveria hospedar a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) e oferecer plantão 24 horas, com um orçamento estimado de R$ 10 milhões.
Contudo, apesar da expectativa prévia de que o espaço estaria concluído neste ano, o local permanece inalterado e sem qualquer obra.