A reconstrução mamária, um procedimento garantido por lei para mulheres que enfrentam o câncer de mama e são submetidas à mastectomia, faz parte essencial do tratamento. Contudo, na prática, o acesso a essa cirurgia no sistema público de saúde ainda é restrito. Estatísticas do Datasus revelam que, de 2014 a 2024, apenas 17% das pacientes que tiveram a mama removida devido ao câncer conseguiram realizar a reconstrução através do Sistema Único de Saúde (SUS).
A lei brasileira, vigente desde 2013, determina que a reconstrução deve ocorrer na mesma cirurgia da mastectomia, desde que haja condições clínicas favoráveis. No entanto, segundo o cirurgião plástico Fernando Campos Moraes Amato, o maior desafio para assegurar esse direito não reside na legislação em si, mas na infraestrutura deficiente do SUS.
O especialista aponta que as dificuldades incluem a contratação e o treinamento de profissionais, a escassez de materiais e a organização geral da rede de saúde.
“Uma nova lei por si só não soluciona a questão. O SUS já opera com excesso de demanda e, frequentemente, a reconstrução é relegada a um segundo plano, pois persiste a percepção equivocada de que é um procedimento estético, quando, de fato, é parte integrante da recuperação da paciente”, explica Amato.
A Reconstrução Mamária e Suas Dimensões Além da Estética
Fernando Amato ressalta que ver a reconstrução mamária unicamente como um procedimento estético ignora as profundas consequências físicas e emocionais que as mulheres encaram após a mastectomia.
Além da remoção da mama, muitas pacientes sofrem com assimetrias corporais, que podem resultar em dores na coluna, mudanças na postura e restrições de movimento, especialmente quando apenas uma mama é retirada.
O procedimento reconstrutivo é fundamental também para mitigar os impactos psicológicos da mastectomia, que afetam diretamente a autoestima e a qualidade de vida feminina.
Embora a legislação contemple a execução imediata da cirurgia, o médico enfatiza que essa nem sempre é a opção mais adequada para todas as pacientes.
Em alguns casos, é crucial esperar o progresso do tratamento oncológico, como quimioterapia ou radioterapia, ou garantir a remoção completa da lesão antes de definir a técnica de reconstrução mais indicada.
Ausência de Equipes e Materiais Restringe o Atendimento
Entre as barreiras para elevar o número de reconstruções mamárias no SUS, Fernando Amato aponta a ausência de equipes especializadas, a remuneração insuficiente dos procedimentos, a falta de materiais e desafios na gestão.
Conforme o médico, muitos cirurgiões plásticos evitam atuar nesta área devido ao financiamento considerado inadequado para tais procedimentos.
Outra questão relevante é a qualidade dos materiais. Frequentemente, hospitais públicos utilizam próteses de padrão inferior, o que, na visão do especialista, aumenta a probabilidade de complicações e a necessidade de reintervenções cirúrgicas.
Desigualdade Regional Intensifica as Dificuldades
O acesso à reconstrução também demonstra grande variação de acordo com a região geográfica do Brasil e a condição social das pacientes.
Enquanto estados como São Paulo reúnem serviços especializados, muitas outras cidades brasileiras dispõem de tratamento oncológico, mas carecem de infraestrutura para a reconstrução mamária.
Nestes cenários, as pacientes são obrigadas a se deslocar para grandes centros. Consequentemente, hospitais de referência enfrentam uma sobrecarga de demanda, resultando em longas filas de espera, que podem se estender por anos em alguns casos.
Iniciativa Visa Ampliar Reconstruções pelo SUS
Diante desse panorama, Fernando Amato idealizou o Projeto Mama Minha, uma ação que integra recursos públicos e privados para expandir o número de reconstruções mamárias oferecidas a pacientes do SUS.
Desde sua concepção, o projeto já superou a marca de 150 cirurgias, beneficiando mulheres que estavam na fila de espera da rede pública.
Segundo o médico, a experiência do projeto evidenciou que adaptações relativamente modestas na organização dos serviços podem gerar impactos notáveis.
A iniciativa permitiu a captação de fundos para adquirir implantes de melhor qualidade, possibilitou a realização de cirurgias adicionais no Hospital São Paulo e focou no acompanhamento personalizado das pacientes.
As pacientes são orientadas sobre as diversas opções de reconstrução existentes e participam ativamente da elaboração de seu plano de tratamento.
“O diálogo é fundamental. Muitas pacientes chegam com a crença de que há apenas uma técnica disponível ou que o uso de próteses é inevitável. Com informações precisas, elas podem participar da decisão e, em muitos casos, escolhem alternativas igualmente eficazes, o que otimiza o resultado e previne o desperdício de recursos”, detalha Amato.
Projeto Também Foca na Capacitação de Novos Profissionais
Além de expandir o atendimento às mulheres, o Projeto Mama Minha desempenha um papel importante na formação de novos profissionais.
Residentes tiveram a oportunidade de acompanhar os procedimentos e receber treinamento especializado em reconstrução mamária. Para o cirurgião, esse formato poderia ser replicado em outras localidades do Brasil para ampliar a oferta do procedimento.
Amato acredita que o Brasil tem potencial para progredir neste campo, contanto que a reconstrução seja plenamente integrada ao tratamento do câncer de mama.
“Nosso objetivo mínimo deveria ser duplicar a oferta de reconstruções. Mais do que apenas aumentar estatísticas, é crucial assegurar que toda mulher em tratamento de câncer receba uma assistência integral”, finaliza o especialista.
Critérios de Participação no Projeto Mama Minha
O projeto se destina a mulheres que realizaram mastectomia ou tratamento de câncer de mama pelo SUS e estão aguardando por procedimentos reparadores na fila.
O processo de atendimento é condicionado pela regulação e pelo acompanhamento médico que as pacientes já recebem na rede pública, bem como pelo sistema integrado ao Hospital São Paulo.
Fonte: Terra